Introdução – Do analógico ao digital: as mudanças na radiodifusão
Há um século, o rádio dava o ar da graça… cresceu e se popularizou, agora passa por mais uma grande revolução. Teve outras, mas esta é mais intensa. TV, disco vinil, cd, fita k7, internet.
Quais as mudanças: na linguagem radiofônica, conteúdos;
na produção;
na distribuição;
no consumo.
Neste curso vamos aprofundar sobre os desafios para continuar a fazer rádio comunitária compreendendo as tantas transformação pelas quais estamos atravessando.
Transcrição da Aula
VEJA A TRANSCRIÇÃO DESTA AULA AQUI: o conteúdo abaixo contém as mesmas informações do vídeo. Ele te ajudará, caso você tenha dificuldade em assistí-lo.
Olá. Há um século, o rádio dava o ar da graça. Ele cresceu, se popularizou e agora passa por mais uma grande revolução. Sim, porque houve outras revoluções, outros desafios. Mas este é o mais intenso. Quando chegou a televisão, discutia-se se o rádio, se a televisão não ia acabar com o rádio e nada disso aconteceu.
Provocou uma transformação na sua grade de programação, provocou uma mudança na sua linguagem. Mas o rádio continuou convivendo com essa tecnologia que tinha chegado à época no disco de vinil, o CD, a fita cassete, tudo isso trouxe desafios para o rádio, impactou no rádio, mas ele conseguiu dar a volta por cima. Agora nós estamos diante de um grande desafio, que são as novas tecnologias da comunicação, caracterizada pela essa rede mundial de computadores que colocam para o rádio também imensos desafios, possibilidades, oportunidades.
E é claro que esse nosso ente querido vai superar esses desafios, mas ele precisa da nossa ajuda. Ele precisa da nossa criatividade, porque foi assim que ele enfrentou os desafios e é assim que ele vai continuar existindo nessa nova, nesse novo momento tecnológico.
Bom, precisamos entender o que esse momento traz de mudanças, de desafios e acho que nós poderíamos pontuar algumas questões.
Por exemplo, esse momento tecnológico. Ele se caracteriza por um desafio em que a gente busca uma nova linguagem radiofônica. O momento tecnológico impacta na linguagem do rádio, e nós precisamos pensar como tratar a linguagem radiofônica com esses novos desafios. Esse momento também impacta na questão dos conteúdos que nós produzimos no rádio. Esse momento impacta na produção, na forma de produzir rádio.
Esse momento impacta na forma de distribuir conteúdos, de veicular. Vai ser por radiodifusão e por outras formas, como na internet. E esse momento impacta também fortemente no consumo, na forma como o ouvinte, como usuário da internet, o nosso ouvinte recebe esse conteúdo? Em que momento ele ouve? Em que condições ele ouve esse conteúdo?
Então nós podemos perceber que essa revolução tecnológica, ela traz uma força muito grande, transformadora e nós vamos ter que ter bastante criatividade para buscar alternativas, desafios para enfrentar esse novo momento. Bom, este curso que você está participando, ele tem esse grande desafio. Nós vamos aprofundar como continuar a fazer rádio comunitária, compreendendo tantas transformações pelas quais estamos atravessando.
Vamos começar pelo consumo. Hoje temos desde celulares e smartphones, aparelhos tradicionais, rádio em computadores, todos com plena capacidade de acessar o conteúdo radiofônico. Conteúdo é uma coisa, forma de acessar, de ouvir é outra coisa, certo? Um está ligado ao outro, um interfere no outro, não deve ser separado, mas precisamos pensar sobre cada um. Quando estudamos esse fenômeno em relação ao consumo, nós podemos dizer que uma característica forte desse, dessa nova forma de consumir rádio é que as pessoas podem escolher o melhor momento para ouvir certos conteúdos.
Surge então o conteúdo on demand. O conteúdo on demand é aquele conteúdo que nós podemos deixar disponível para que o ouvinte o acesse no momento em que ele tem interesse. Então, nós temos uma grade de programação tradicional na emissora, que está toda programada, que a gente divulgou para o ouvinte dizendo que hora que tem determinado conteúdo. Essa é a forma tradicional de fazer rádio.
Por enquanto, nós continuamos a produzir assim. Mas nós também temos que entender que se o usuário está num smartphone ou está acessando através de outros dispositivos inteligentes, ele pode eventualmente não querer ouvir aquele programa que eu estou entregando para ele naquele horário na minha programação, e ele pode eventualmente querer navegar na net, na minha página e acessar um conteúdo específico.
Então eu preciso criar ambientes digitais online que estejam carregados de conteúdos da minha programação que eu deixo ali disponíveis para eles poderem acessar, certo? O interesse do ouvinte tem que ser respeitado e as tecnologias permitem que ele acesse no horário que ele tem disponível. Então eu preciso deixar os tais conteúdos on demand, conteúdos que vão ficar lá, trechos da minha programação, programas inteiros, conteúdos de qualidade que vou deixar ali para que o ouvinte possa acessar.
Então, essa é uma característica de uma mudança de comportamento do ouvinte que eu preciso ir adaptando a minha forma de ser rádio comunitária. Por enquanto, manter uma grade de programação no ar era o suficiente. Agora já estamos diante de novos desafios e vale a pena interagir com o ouvinte.
Uma outra característica importante desse novo momento é que as novas tecnologias permitem uma interação, uma aproximação entre o ouvinte e entre quem produz o conteúdo e quem recebe o conteúdo. Então, essa possibilidade tecnológica de uma aproximação entre as duas pontas de quem produz e quem recebe o conteúdo é uma possibilidade importante que também nós precisamos pensar e adaptar. E alterar a nossa rotina de produção, o nosso modo de ser, para esse novo modo em que o ouvinte participa e interage, contribui, colabora com a nossa programação.
Falar em participação do ouvinte é muito importante, nós temos que compreender que a nossa emissora de rádio fica mais rica, mais forte, com a participação do ouvinte. E nós precisamos criar canais, criar espaços de participação, criar formas de interação tanto na programação quanto na produção, na preparação das reportagens, no desenvolvimento das reportagens. Criar uma aproximação com ouvinte é uma coisa muito boa, que tende a fortalecer muito a emissora comunitária.
As novas tecnologias fazem naturalmente uma aproximação das pessoas aos modos de produção de conteúdo. No nosso caso, de conteúdo radiofônico, as tecnologias barateiam o processo, nos fornecem possibilidades mais eficientes, acessíveis de todos. E nós precisamos dominar essas novas tecnologias. Então, quando novos aparelhos celulares gravam o áudio de boa qualidade, quando esses aparelhos permitem a edição desse áudio, tudo isso são tecnologias que vão chegando e que nós precisamos dominar.
E o nosso ouvinte também está tendo contato com essas tecnologias, certo? Então quer dizer que o nosso ouvinte também está envolvido nesse desafio, nessa possibilidade de gerar um conteúdo de áudio, de cortar ele mesmo áudio, editar e mandar para a gente esse áudio editado, esse áudio montado. Isso tudo nós temos que ver como possibilidades importantes para nossa emissora comunitária.
Logo a gente que nós sempre trabalhamos, lutamos para essa aproximação com o público. Agora estamos tendo a possibilidade real de construir essa parceria com o público, que também quer se envolver com a nossa emissora comunitária. É claro que acessar essas novas tecnologias, esses novos aplicativos, exige treinamento. A gente precisa se capacitar. A gente precisa testar.
Isso dá um certo trabalho, mas é necessário que a gente encare o desafio deste curso de frente. Ele é um passo importante para a gente poder dominar essas tecnologias, dominar essa relação nova que nos é oferecida, de aproximar com o ouvinte, aproximar a produção e a colaboração do ouvinte.
Bom, faz parte dessa nova expectativa o ouvinte interferir na nossa programação e a gente tem que entender como isso é bom.
Então, abrir o microfone, receber sugestões do ouvinte. Ele pode mandar um áudio para a gente e a gente colocar imediatamente na programação. Isso tudo a gente precisa adaptar ao nosso processo de produção. Mas isso tudo tende a enriquecer. Como eu já falei para vocês, isso caracteriza o acontecimento mais importante desse momento, que é a participação e a possibilidade de participação do público que recebe uma comunicação.
Agora ele vai poder participar desse processo também, gerando essa comunicação, essa aproximação. Volto a insistir, tem tudo a ver com a rádio comunitária. A radiodifusão comunitária sempre defendeu a importância de ter novos sujeitos produzindo comunicação, não é verdade? Novas ideias, mais pluralidade, mais debate, mais diálogo. E esse momento tecnológico fortalece exatamente essa perspectiva. Então, isso fortalece também o nosso projeto de rádio comunitária.
Por isso que é tão importante a gente acolher esse momento. Ele traz desafios. Nós vamos discutir nesse curso inteirinho, mas é o caminho, sem dúvida nenhuma.
Eu falei que tem essa mudança na forma de consumir. Nós temos que adaptar nossa programação, nossa produção. Tem também mudanças na linguagem das rádios, não é? A medida em que eu produzo um conteúdo que está sendo transmitido só na minha programação, eu uso uma linguagem. Quando eu vou produzir conteúdos que também ficam lá disponível on demand, ficam disponível para ser acessado em outros horários, eu vou também mudando a característica da linguagem que eu coloco nesses conteúdos. Um programa que tem mais participação do ouvinte, colorido, mais conversado, mais dialogado vou usar uma linguagem mais coloquial, mais descontraída e então é preciso a gente voltar, experimentar, testar essas novas linguagens que a gente pode utilizar nesse novo momento para entender a nova rádio.
O que é fazer rádio no futuro?
É preciso entender os desafios quanto a produção e então a colaboração do ouvinte, o consumo, a distribuição. Como eu já falei.
Alguns dizem que a rádio vai acabar com as novas tecnologias. Não, não vai acabar, é claro. Aquela caixa de produzir música, ela talvez mude muito, mas o nosso rádio é mais do que uma caixa que toca música. O nosso rádio é um veículo que transporta informação, é o veículo que traz comentários, é o veículo que traz explicação.
Tudo isso é muito importante e nos diferencia de simplesmente uma caixa que toca música, certo? Muitas pessoas colocam aqui as novas tecnologias. Elas estão produzindo a possibilidade de você escolher sua playlist e você fazer a sua própria “rádio”. E a “minha rádio” é diferente da “sua”, da do colega de todo mundo e isso significa uma hiper fragmentação, fragmentação da fragmentação.
Eu tenho a minha própria playlist, a minha própria caixinha de música, mas isso não é propriamente o que oferece uma emissora de rádio. A emissora de rádio oferece músicas, o rádio também toca música, que isso é uma dimensão importante. Mas o rádio é mais do que uma playlist. O rádio é esse diálogo, essas notícias. O professor Luiz Fernando Santoro deu uma entrevista importante para uma emissora de rádio em que ele fala desse desafio de que muitas pessoas, muitos usuários de internet, estão encantados com essa ideia da programação à la carte, “Eu faço a minha própria playlist”. De fato, isso atende a uma certa satisfação individual de cada pessoas, de cada pessoa que busca, que constrói sua playlist, mas é como nós dizemos e o professor Santoro também nos orienta. Ele diz “Não, mas as rádios, elas são muito mais do que uma playlist”. Essa ideia da hiper individualização do conteúdo atende numa certa expectativa, mas não atende uma outra expectativa deles, que é exatamente estar no contexto de uma coletividade, no contexto de notícias que são comuns para mim, para você, para o ouvinte do lado. Então, essa ideia da coletividade que o rádio nos traz, isso é um grande diferencial.
Então é como nós estamos dizendo, não estamos negando a tecnologia, mas nós estamos usando a tecnologia para construir essa coletividade. É bom gostar das coisas que as outras pessoas também gostam, inclusive da playlist oferecida pela emissora de rádio, que é comum para todos os ouvintes, inclusive das notícias tão importantes que são colocadas para as pessoas.
Bom, você já percebeu que a nossa discussão é muito rica, muito profícua e ela vai longe. Nós estamos encerrando a aula de hoje. Nós vamos continuar alimentando esses debates. Continue conosco, responda o nosso questionário no final desta aula, leia os textos de apoio e nos vemos na próxima aula. Um abraço!
